Uma Alegria
Às vezes difícil, mas ainda assim alegria.
11.5.12
2.5.12
Egocentrismo, vol. I
"Já é seu aniversário novamente?"
"É sim."
"Como o tempo passa rápido! Parece que ainda ontem eu era apenas um bebê."
"É sim."
"Como o tempo passa rápido! Parece que ainda ontem eu era apenas um bebê."
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20.4.12
mulher-árvore
Ontem fui ao mercado fazer compras. Voltava de uma visita a uma amiga na zona norte, peguei metrô lotado na ida, metrô lotado na volta, de pé. Meio cansada, paro no mercado para umas compras, e volto o resto da caminho andando, com as sacolas. Adoro não ter carro, mas detesto carregar coisas. A sacola pesada no meu ombro me levava a contraí-lo, tensioná-lo, e a experiência ficava ainda pior. Lembrei de uma professora de yoga que nos lembrava de usar a mecânica do corpo mesmo, deixá-lo fazer o trabalho, não tensionar áreas desnecessárias, e tudo sempre ficava melhor quando ela falava: relaxe os ombros. Decidi relaxar os meus ombros, e deixar que eles funcionassem da maneira mais pura para apoiar aquela sacola, como um simples pendurador, sem precisar de tensão extra alguma. "Meu ombro, meu braço, meu tronco podem funcionar como galhos de árvores", pensei. E então me pareceu muito plausível que eles fossem, realmente, como pedaços de outro ser vivo qualquer - só feitos de um material diferente.
Senti um certo orgulho em oferecer para a sacola um apoio tão bruto e natural como um galho de árvore. "Pois eu tenho isso pra oferecer pro mundo?", pensei, e fiquei feliz. Eu, uma cabeça flutuante, não me achava capaz de oferecer algo assim ao mundo. Pode ter sido apenas uma sacola, cheia de produtos de plástico com suas logomarcas, mas ainda assim me vi feliz com minha contribuição.
Às vezes me bate uma sensação de unidade inexplicável com o resto das coisas. Como quando, durante uma viagem de ônibus, desci a Serra das Araras, no Rio de Janeiro, de noite. Apesar de perigosa, a experiência foi inexplicável. São muitas curvas na estrada, todos os veículos em baixa velocidade, e víamos os faróis dos carros em outros trechos da rodovia iluminando a serra acima e abaixo de nós, em alguns poucos pontos - parecia um sonho. O meu prazer era quase sexual, me senti atraída pela serra. Estranhei, ao mesmo tempo em que fazia muito sentido - era um prazer tão grande com aquele cenário, queria interagir com ele, mas não sabia como. Entendi a amplitude do prazer sexual. Me senti parte daquilo de uma maneira que não cabia em mim, e era bom.
Outro dia ouvia uma música no youtube, e o primeiro comentário dizia "ah se eu pudesse trepar com uma música". Era o comentário mais curtido, tanta gente queria trepar com aquela música. São breves os momentos em que me sinto um pedaço de carne (também, além de), com ossos, vísceras, e tudo o mais que existe no mundo. Que sinto na pele que sou feita dos mesmos carbonos que todo o resto - só organizada de maneira diferente. E apesar dessa simples reorganização ser capaz de gerar universos inteiros dentro de cada ser - e que bonito é isso - por vezes, nessas horas, acho lindo ser mais um tanto de carbono nesse mundo. Me acalma.
Senti um certo orgulho em oferecer para a sacola um apoio tão bruto e natural como um galho de árvore. "Pois eu tenho isso pra oferecer pro mundo?", pensei, e fiquei feliz. Eu, uma cabeça flutuante, não me achava capaz de oferecer algo assim ao mundo. Pode ter sido apenas uma sacola, cheia de produtos de plástico com suas logomarcas, mas ainda assim me vi feliz com minha contribuição.
Às vezes me bate uma sensação de unidade inexplicável com o resto das coisas. Como quando, durante uma viagem de ônibus, desci a Serra das Araras, no Rio de Janeiro, de noite. Apesar de perigosa, a experiência foi inexplicável. São muitas curvas na estrada, todos os veículos em baixa velocidade, e víamos os faróis dos carros em outros trechos da rodovia iluminando a serra acima e abaixo de nós, em alguns poucos pontos - parecia um sonho. O meu prazer era quase sexual, me senti atraída pela serra. Estranhei, ao mesmo tempo em que fazia muito sentido - era um prazer tão grande com aquele cenário, queria interagir com ele, mas não sabia como. Entendi a amplitude do prazer sexual. Me senti parte daquilo de uma maneira que não cabia em mim, e era bom.
Outro dia ouvia uma música no youtube, e o primeiro comentário dizia "ah se eu pudesse trepar com uma música". Era o comentário mais curtido, tanta gente queria trepar com aquela música. São breves os momentos em que me sinto um pedaço de carne (também, além de), com ossos, vísceras, e tudo o mais que existe no mundo. Que sinto na pele que sou feita dos mesmos carbonos que todo o resto - só organizada de maneira diferente. E apesar dessa simples reorganização ser capaz de gerar universos inteiros dentro de cada ser - e que bonito é isso - por vezes, nessas horas, acho lindo ser mais um tanto de carbono nesse mundo. Me acalma.
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29.2.12
Vento nu
Os últimos dias têm sido curiosos - voltei para casa, depois de muito tempo longe - casa que não é só minha, exceto essa semana. Não sabia o que aconteceria com esses meus dias, fiz vários planos. A realidade: passei a semana pelada e lavando minhas roupas.
As roupas estavam sujas, pegaram muita chuva, muito frevo, lama, e ficaram curtindo na sujeira por um bom tempo. As roupas de cama e de banho também. Mas são poucos os varais, então aproveito a casa vazia para espalhar roupas a secar pela casa inteira. Toda a casa mesmo, foram várias máquinas de roupa suja virando limpa, agora molhada, querendo só um pouquinho de vento pra secar. Estão pela casa inteira, tudo que possuo, limpo. E eu, pelada. É que moro no Rio de Janeiro, e faz um calor desgraçado. Comecei tímida, de calcinha e blusa. Depois calcinha e sutiã, e daí pro nudismo foi um passo. É difícil - sabe algumas verdades que você não gosta de assumir nem pra si mesma? Pois é, meu corpo nu é um deles. Mas o cheiro de amaciante releva qualquer dor.
E agora cheguei em casa, abri as janelas e liguei o ventilador. Moro no décimo quinto andar, tem uma pedra com uma mata linda na janela, mas o ventilador ajuda a refrescar. É quase meia noite, fui esquentar uma comida, já me despi como se fosse esse um costume antigo, e sento aqui, entre o ventilador e a janela, sentindo ora o vento que refresca, ora a brisa da mata. E os lencóis na sala a voar.
As roupas estavam sujas, pegaram muita chuva, muito frevo, lama, e ficaram curtindo na sujeira por um bom tempo. As roupas de cama e de banho também. Mas são poucos os varais, então aproveito a casa vazia para espalhar roupas a secar pela casa inteira. Toda a casa mesmo, foram várias máquinas de roupa suja virando limpa, agora molhada, querendo só um pouquinho de vento pra secar. Estão pela casa inteira, tudo que possuo, limpo. E eu, pelada. É que moro no Rio de Janeiro, e faz um calor desgraçado. Comecei tímida, de calcinha e blusa. Depois calcinha e sutiã, e daí pro nudismo foi um passo. É difícil - sabe algumas verdades que você não gosta de assumir nem pra si mesma? Pois é, meu corpo nu é um deles. Mas o cheiro de amaciante releva qualquer dor.
E agora cheguei em casa, abri as janelas e liguei o ventilador. Moro no décimo quinto andar, tem uma pedra com uma mata linda na janela, mas o ventilador ajuda a refrescar. É quase meia noite, fui esquentar uma comida, já me despi como se fosse esse um costume antigo, e sento aqui, entre o ventilador e a janela, sentindo ora o vento que refresca, ora a brisa da mata. E os lencóis na sala a voar.
15.1.12
Acontece
Tem uns dias assim que a gente quer que qualquer coisa de excepcional aconteça. Do chato e do de sempre, tô farta. Quero aquele momento do filme, em que debaixo da chuva e descabelada, a heroína sente algo. Descobre algo, lhe tropeçam o caminho, e a platéia se arrepia.
Saí de casa em busca disso. Mas, meio cansada, peguei um taxi. Meu pé dolorido das horas em pé na fila do banco, meio triturada pela faxina, decidi ir ao cinema de taxi mesmo (sozinha, muito menor a chance desse grande acontecimento acontecer). O filme seria maravilhoso, tocante, alta probabilidade de gerar aquela sensação. Mas tava lotado.
Decidi então que faria a tatuagem que sempre sonhei. Mas o desenho tava em casa, voltei a pé para buscá-lo. Aumentou o cansaço, bateu uma fome, esquentei a lasanha de anteontem. Minha amiga me chamou no chat, falamos sobre qualquer bobagem. Já tava meio tarde, nossa, que preguiça de levantar agora. Vou ler um livro intenso então, aquele que vivo adiando a leitura, ou as cartas de minha falecida mãe. Elas sempre funcionam.
É, bonitas, mas essa gastrite tá me matando. Para o livro, pouca paciência. Para o vinho, sem estômago. Para o doce, falta de espaço.
Acho que não vai ser hoje que vai acontecer.
Saí de casa em busca disso. Mas, meio cansada, peguei um taxi. Meu pé dolorido das horas em pé na fila do banco, meio triturada pela faxina, decidi ir ao cinema de taxi mesmo (sozinha, muito menor a chance desse grande acontecimento acontecer). O filme seria maravilhoso, tocante, alta probabilidade de gerar aquela sensação. Mas tava lotado.
Decidi então que faria a tatuagem que sempre sonhei. Mas o desenho tava em casa, voltei a pé para buscá-lo. Aumentou o cansaço, bateu uma fome, esquentei a lasanha de anteontem. Minha amiga me chamou no chat, falamos sobre qualquer bobagem. Já tava meio tarde, nossa, que preguiça de levantar agora. Vou ler um livro intenso então, aquele que vivo adiando a leitura, ou as cartas de minha falecida mãe. Elas sempre funcionam.
É, bonitas, mas essa gastrite tá me matando. Para o livro, pouca paciência. Para o vinho, sem estômago. Para o doce, falta de espaço.
Acho que não vai ser hoje que vai acontecer.
6.12.11
finita e inacabada
disseram sobre o homem: que continuaria revoltado enquanto não aceitasse essa sua condição, de ser finito e inacabado. sobre acabar a revolta não sei, mas não duvido de que seja essa mesma nossa máxima: um com-fim sem-fim, e talvez leve toda sua duração - até lá, o fim - para aceitá-lo.
como todas as outras coisas que aprendemos muitas vezes na vida (sem necessariamente desaprendê-las), essa é uma que volta a me visitar agora. na mesma semana, uma semana repentina em mais de quatro anos, em que começo a repensar tanto do que venho guardando, nessa mesma semana ouço um dos meus questionar o mesmo. ele busca o novo, um pouco mais de novidade na sua vida, o que implica em deixar pra trás o velho, que sempre nos serviu. bem quando eu começava a criar coragem pro mesmo, não é engraçado? mas é claro (quantas vezes vamos repetir os clichês na vida?), para abrir espaço pro novo devemos nos despedir do velho, sempre o soube. nossa velha casa, onde vivi desde quando tenho lembranças.
foi naquela casa que buscava caules de mamoeiro pra soltar bolinhas de sabão, por aquele quintal onde passaram tantos cachorros. era seu muro que pulava pra ir brincar na rua, na sua garagem andava de patins, na sua varanda jogava água e sabão em pó para escorregar até quando os joelhos aguentassem. lá me deitava na rede, de olho nas copas das árvores, quando as agonias adolescentes me afligiam, acompanhada de meu walkman e fitas com músicas cortadas. nos seus sofás amarelos montava cabanas, e anos mais tarde cochilava neles depois da escola. daquela cozinha já saíram muito mais de mil cheiros, suas panelas foram tocadas por muitas mãos - a especialidade do meu avô era sua massa de torta, a téia fritava sonhos quando eu desejava sonhos no fim da tarde, minha irmã estourava pipoca (sempre salgava demais), fazia brigadeiro, e íamos assistir televisão, enquanto o sol se punha.
à noite eram muitos os barulhos estranhos, as tábuas rangiam, e do primeiro pro segundo andar era uma aventura. íamos correndo em direção aos interruptores, que traziam luz e segurança pra gente. as escadas eram descidas a pé, correndo atrasada pra escola, ou de colchão quando minha mãe, que condenava a brincadeira, estava no trabalho. eram descidas com pressa e sono nas manhãs de natal, atraídas pelo cheiro das panquecas feitas na cozinha. mamãe ainda vestia seu robe, vermelho vivo, já com cara de quem estava acordada a horas, tomando seu café.
lá a luz é imensa - a casa é cheia de vidros. seus chãos de madeira, paredes de vidro, e paisagem de trepadeiras a beirar a sala foram cenário de muitos dos momentos daquela família que por muito tempo foi aquela família, e parecia sempre o ser. se aquilo era uma família, eu tinha uma, e duraria pra sempre.
o chão, as janelas, a vista e as bugingangas ainda estão lá, mas nós não. virou então cenário de fantasmas, possui tudo que é necessário para criar o inexistente. e até quando o inexistente reinará sobre o possível?
é palco de uma vida inteira que não é mais. como é difícil, sempre, me despedir dela. se a sensação é de luto, é acertada: sua perda é como uma morte, chorar o leite derramado, ou evaporado, sublimado, que não voltará. não voltará e não tem problema - se hoje ouço o condutor anunciar a próxima parada do metrô e me encanto por conquistar um lugar, com seu chão, seu céu, e seu mar, inteiros novos pra mim, posso ficar tranquila que, se o que já foi, já foi, o que virá, virá. e não vai acabar, até o fim.
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24.11.11
maré alta
tenho tido muitos sonhos com o mar. certamente isso já havia acontecido uma ou outra vez antes na minha vida, mas esses tantos, recorrentes sonhos de agora, são diferentes. acho que minha relação com o mar mudou, mesmo estando de costas pra ele a maior parte dos meus dias. e acordo feliz da vida desses sonhos - o mar entrou no meu álbum de símbolos, faz mais parte de mim agora, ahhhh, deixa essa cidade me benzer!
ontem à noite foi assim: voltava da praia, fim de tarde. a maré cheia vinha com violência para a areia, e meu caminho de volta estava estreito. eu estava entre as ondas batendo bravamente, como fazem em rochas, e uma cerca de madeira, agora atingida pelas ondas altas. mas o mar vinha e ia - não é assim que ele faz? e depois de uma onda forte ele recuava, e me deixava caminhar em paz. quando uma onda se aproximava, eu logo aprendi que o melhor a se fazer era parar, me segurar na cerca, e esperar a onda passar. o mar recuava, eu avançava mais alguns passos, e me segurava novamente. lá na frente a cerca acabava, e a areia era larga e espaçosa, as ondas mais suaves. sabia que no meu ritmo chegaria lá, mas deveria não desesperar debaixo das ondas. e assim fui levando, pancadas e calmarias, sabendo a hora de parar e andar, tranquila que no meu horizonte havia um caminho mais suave.
ontem à noite foi assim: voltava da praia, fim de tarde. a maré cheia vinha com violência para a areia, e meu caminho de volta estava estreito. eu estava entre as ondas batendo bravamente, como fazem em rochas, e uma cerca de madeira, agora atingida pelas ondas altas. mas o mar vinha e ia - não é assim que ele faz? e depois de uma onda forte ele recuava, e me deixava caminhar em paz. quando uma onda se aproximava, eu logo aprendi que o melhor a se fazer era parar, me segurar na cerca, e esperar a onda passar. o mar recuava, eu avançava mais alguns passos, e me segurava novamente. lá na frente a cerca acabava, e a areia era larga e espaçosa, as ondas mais suaves. sabia que no meu ritmo chegaria lá, mas deveria não desesperar debaixo das ondas. e assim fui levando, pancadas e calmarias, sabendo a hora de parar e andar, tranquila que no meu horizonte havia um caminho mais suave.
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